quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Trecho do livro, "Memórias de um suicida", de Yvonne Amaral Pereira

"Em geral aqueles que se arrojam ao suicídio, para sempre esperam livrar­-se de dissabores julgados insuportáveis, de sofrimentos e problemas considerados insolúveis pela tibiez da vontade deseducada, que se acovarda em presença, muitas vezes, da vergonha do descrédito ou da desonra, dos remorsos deprimentes postos a enxovalharem a consciência, conseqüências de ações praticadas à revelia das leis do Bem e da Justiça. 
Também eu  assim pensei, muito apesar da auréola de idealista que minha vaidade acreditava glorificando-­me a fronte. 

Enganei­-me, porém; e lutas infinitamente mais vivas e mais ríspidas esperavam-­me a dentro do túmulo a fim de me chicotearem a alma de descrente e revel, com merecida justiça. 

As primeiras horas que se seguiram ao gesto brutal de que usei, para comigo mesmo, passaram-­se sem que verdadeiramente eu pudesse dar acordo de mim. Meu Espírito, rudemente violentado, como que desmaiara, sofrendo ignóbil colapso. Os sentidos, as faculdades que traduzem o "eu" racional, paralisaram­-se como se indescritível cataclismo houvesse desbaratado o  mundo, prevalecendo, porém, acima dos destroços, a sensação forte do aniquilamento que sobre meu ser acabara de cair. Fora como se aquele estampido maldito, que até hoje ecoa sinistramente em minhas vibrações mentais –, sempre que, descerrando os véus da memória, como neste instante, revivo o passado execrável – tivesse dispersado uma a uma as moléculas que em meu ser  constituíssem a Vida! "


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